Os atletas portugueses de surf adaptado acusam a Federação Portuguesa de Surf (FPS) de ter reduzido o investimento, o acompanhamento e a comunicação dedicada à modalidade desde a entrada em funções da atual direção, há cerca de um ano e meio.
A denúncia surge depois de a federação ter publicado uma mensagem de apoio aos atletas portugueses participantes no Qualifying Series de Pantín, na Galiza, sem fazer referência aos representantes nacionais de surf adaptado que competiam no mesmo contexto internacional.
“Se fazem posts para atletas portugueses que competem em provas internacionais, porque razão também não o fazem quando nós participamos?”, questiona Camilo Abdula. “Ou fazem para todos ou para nenhum.”
Marta Paço, tetracampeã mundial de surf adaptado e vice-campeã mundial em 2025, afirma que a atual direção provocou um “claro desinvestimento e afastamento” em relação aos atletas de parasurfing.
Segundo a atleta, antes da mudança de direção eram realizados anualmente três estágios e uma sessão de captação de novos atletas. Estas iniciativas, defende, são essenciais numa modalidade ainda jovem e em desenvolvimento.
“Desde a tomada de posse do novo executivo apenas conseguimos, a muito custo, fazer um estágio no passado mês de julho”, relata Marta Paço.
Convocatória confirmada quatro dias antes da viagem
Os atletas dizem também ter recebido a confirmação da participação portuguesa no Campeonato do Mundo de Para Surfing de 2025 apenas quatro dias antes da viagem para os Estados Unidos.
A falta de antecedência terá criado dificuldades acrescidas aos atletas que conciliam a prática desportiva com estudos ou trabalho.
Portugal esteve representado no Mundial ISA de 2025 por Marta Paço e Camilo Abdula, entre outros atletas. Paço terminou a competição na segunda posição da sua categoria, enquanto Abdula competiu na classe Para Surf Stand 1. A International Surfing Association confirma a presença dos dois atletas na seleção portuguesa.
Lesão de Camilo Abdula levantou dúvidas sobre o seguro
Durante o Mundial de 2025, Camilo Abdula fraturou um osso do pé. De acordo com os testemunhos recolhidos, os atletas e treinadores verificaram no momento que não existia um seguro que cobrisse imediatamente as despesas médicas.
“Fomos obrigados a adiantar cerca de 2500 euros do nosso próprio dinheiro”, afirma Marta Paço. O valor terá sido posteriormente reembolsado pela Federação Portuguesa de Surf.
Para os atletas, o episódio revela falhas de planeamento e coloca em causa a segurança das delegações portuguesas em competições internacionais.
“Se não tivéssemos dinheiro para cobrir o tratamento, não sei como teríamos saído daquela situação”, diz Marta Paço.
O orçamento provisório da FPS para 2025 previa 25 mil euros para o Campeonato do Mundo de Para Surfing, oito mil euros para o Campeonato da Europa de Surf Adaptado e cinco mil euros para o apoio ao desenvolvimento do desporto para pessoas com deficiência. A existência destas verbas orçamentadas, contudo, não permite concluir quanto foi efetivamente gasto ou de que forma foi aplicado.
“Somos constantemente esquecidos”
A crítica dos atletas não se limita ao apoio financeiro ou logístico. Marta Paço afirma que os praticantes de surf adaptado são “sistematicamente excluídos” das comunicações da federação, apesar dos resultados alcançados e da participação regular em provas internacionais.
Camilo Abdula considera que esta ausência de comunicação transmite uma mensagem de desvalorização.
“A nossa indignação é pelo facto de a FPS dar boa sorte aos atletas que participam no QS de Pantín e se esquecer constantemente dos atletas de parasurfing”, afirma. “Somos constantemente esquecidos pelos mesmos.”
A FPS reconheceu entretanto a situação através de uma publicação de pedido de desculpas, segundo os atletas. A publicação original e a mensagem posterior não puderam ser consultadas diretamente, uma vez que o Instagram não disponibilizou o conteúdo para verificação independente.
Uma modalidade com resultados internacionais
As críticas surgem num momento em que o surf adaptado português continua a alcançar resultados relevantes. Marta Paço foi vice-campeã mundial em 2025 e já conquistou quatro títulos mundiais. Camilo Abdula foi campeão mundial em 2022 na categoria Stand 1.
No Campeonato da Europa de Para Surfing de 2025, Portugal terminou na quinta posição coletiva. Marta Paço conquistou a medalha de prata na categoria VI1 feminina.
Apesar dos resultados, os atletas temem que a falta de estágios, planeamento e visibilidade comprometa o trabalho desenvolvido nos últimos anos.
“Esta falta de planeamento coloca em causa tudo o que foi feito no parasurfing português pela anterior direção”, considera Camilo Abdula.
Os atletas defendem agora uma maior estabilidade, transparência e igualdade no apoio às diferentes modalidades representadas pela Federação Portuguesa de Surf. Para Marta Paço e Camilo Abdula, o reconhecimento dos resultados deve ser acompanhado por melhores condições de preparação, segurança e comunicação.