David Raimundo. O local da Praia da Poça é há 13 anos o selecionador nacional Open de surf. Diz ser um "sonhador" e um "otimista" por convicção.
Com esses mantras, debaixo da sua batuta, a equipa das quinas tem vindo a quebrar barreiras e a obter grandes resultados nas mais prestigiadas competições internacionais de seleções, seja em Mundiais ISA ou no Eurosurf. A juntar a isto, que já não é coisa pouca, temos as duas inesquecíveis participações olímpicas. Sempre que houve surf no maior evento desportivo do globo, a bandeira portuguesa esteve lá.
Nas últimas semanas, precisamente o surf olímpico esteve na berlinda com o anúncio do novo sistema de qualificação , que tanta tinta tem feito correr. Em entrevista ao MEO Beachcam, David Raimundo diz de sua justiça sobre a solução apresentada, mostrando-se a favor.
Pelo meio, deixa reparos à reação dos atletas do CT . "O surfista profissional está muito mal habituado a várias coisas", considera o antigo top nacional. Uma frase forte, que daria para uma outra entrevista. Seguramente lá iremos um dia destes. Porém, agora o busílis da questão é a rota traçada para Los Angeles'2028.
Como é que olhas para o novo sistema de qualificação olímpica que foi apresentado recentemente?
Olho com muita satisfação. Sempre fui um grande defensor dos valores dos Jogos Olímpicos. Esta alteração vai muito de encontro aquilo que acontece em todas as modalidades. Acho que por sermos uma modalidade olímpica mais recente, ainda vivemos uma fase inicial de andar a apalpar terreno para ver como é que as coisas funcionam melhor. Acho que isto é uma grande evolução na nossa modalidade. Claro que na vida nada é perfeito, mas são muito mais as coisas positivas do que as negativas.
David Raimundo & Yolanda Hopkins nas Olimpíadas de Paris'2024
ISA/Beatriz Ryder
Quais são então os aspetos positivos que encontras neste sistema?
Acho que há coisas muito positivas, que por um lado podem facilitar o apuramento dos nossos atletas e por outro dificultar um bocadinho mais. Anteriormente, tínhamos de lutar pela vaga europeia num Mundial ISA com os países fora da Europa. Agora, com a atribuição das duas vagas no Eurosurf'2027 , estamos apenas a competir com os países do velho continente. Isso reduz significativamente o número de atletas que estão nessa disputa. Continua a ser difícil, mas já não temos de lutar com as nações que tradicionalmente estão no topo do surf mundial.
E em termos de aspetos menos positivos?
Por outro lado, o que acho ser a coisa menos positiva é o facto de cada país passar agora a qualificar três atletas por género. Se olharmos para o ranking do surf mundial, principalmente no lado masculino, vemos que alguns países com mais atletas no CT, como o Brasil, a Austrália ou os Estados Unidos, podem qualificar logo três atletas e isso torna o desafio maior. Como em qualquer processo de qualificação vai ser difícil, pois são só 24 surfistas em cada género. Sabemos das dificuldades, mas há sempre otimismo. Temos qualidade e já provámos isso.
Pela primeira vez, o Eurosurf faz parte do processo de qualificação olímpica. Era algo que estava em falta?
Na minha opinião sim. Um dos princípios dos Jogos Olímpicos é da igualdade. Quando temos dois ciclos olímpicos em que os Jogos Pan-Americanos, que salvo erro são 12 surfistas por género, a lutarem entre eles e há dois atletas que vão diretos às Olimpíadas, todas as outras regiões estavam a ser prejudicadas. Ainda por cima, com o Brasil a apresentar uma formação mais secundária. Esses surfistas estavam a ter uma facilitação muito grande nesse processo de qualificação. Agora, com a introdução do Eurosurf e dos Jogos Asiáticos, já existe mais igualdade.
A entrada do Eurosurf na equação deverá trazer o regresso da França.
Isso é importante contextualizar porque às vezes as pessoas falam sobre esse assunto. Primeiro, a França quando vai a um Mundial ou Europeu é sempre para ganhar. Nas últimas edições, o Eurosurf tem sido em Santa Cruz e acaba sempre muito perto do início do US Open of Surfing da World Surf League (WSL). À semelhança de Portugal e Espanha, a França tem os atletas com melhor ranking em Huntington Beach. Como não querem trazer uma equipa com atletas mais abaixo no ranking - se calhar acham que são menores as probabilidades de vencer - preferem não participar. Esse é o principal motivo da ausência. Nós não temos, nem nunca tivemos medo da França. Já tivemos vários Mundiais ISA em que ficámos à frente deles e queremos que todas as melhores seleções estejam presentes. Queremos provar que somos os melhores contra os melhores.
David Raimundo com Kikas, Vasco Ribeiro e Yolanda Hopkins no Mundial ISA'2021
ISA/Ben Reed
Depois de revelado o novo sistema de qualificação, houve muitas críticas por parte dos surfistas do CT. Como observaste tudo isto?
O surfista profissional está muito mal habituado a várias coisas. Acima de tudo, existe uma falta de noção e de conhecimento daquilo que é o Movimento Olímpico, bem como das instituições que regulam isso. A WSL é uma entidade privada que tem feito o seu trabalho, mas nunca tutelou o surf. A única instituição que é reconhecida pelo Comité Olímpico Internacional (COI) é a Associação Internacional de Surf (ISA). Em conjunto, definem os critérios de qualificação. O comunicado que deveriam ter feito é que falharam com a ISA nos dois ciclos olímpicos anteriores. Quando digo que falharam é porque não foram profissionais e não cumpriram os princípios de ética.
Como é que isso aconteceu?
Muitos dos surfistas do CT perderam heats de propósito. Pode-se questionar a veracidade disso, mas para quem está no mundo do surf é muito fácil de provar que perderam de propósito. Alguns deles simularam lesões e depois surgiram a surfar no pico ao lado, onde iam ter uma prova do CT. Houve sempre uma grande falta de respeito pela ISA e pelos próprios atletas que estão a competir. Não quererem defender o seu país é algo que me deixou bastante desiludido. Houve uns que beneficiaram de terem faltado baterias e outros com hipóteses de irem aos Jogos Olímpicos foram eliminados por eles. Houve muitas situações e custou-me muito ver isso. Agora querem exigir, mas nunca deram de volta. Existe uma culpa muito grande do surfista profissional. É preciso mudar!
A situação agora vai mudar...
Para os surfistas das grandes potências a nível mundial, isto é muito positivo. Passam a qualificar três atletas por género em vez de dois. Com a redução de vagas olímpicas via CT, agora têm é de ir lutar com todos os outros e dar o máximo. O princípio da igualdade é todos terem as mesmas formas de qualificação. Acho que vai tornar o espetáculo mais atrativo e acrescentar valor aos campeonatos. Acredito que daqui para a frente vão começar a olhar para isto de maneira diferente. A nível nacional, as próprias federações vão passar a reunir outras condições, de modo a que possam oferecer outras regalias no futuro.
David Raimundo com Teresa Bonvalot e Yolanda Hopkins nos Jogos Olímpicos de Tóquio'2020
ISA/Ben Reed
Onde ficou Portugal e a Seleção ao observar esses comportamentos dos surfistas nos Mundiais?
Não nos revemos nisto. Felizmente, desde que estou à frente da Seleção Nacional há 13 anos, sempre tivemos um conjunto de atletas que tiveram um orgulho gigante de competir, seja em Mundiais ISA ou Eurosurf. Já tivemos limitações por sobreposição de datas com provas da WSL, mas encontrou-se sempre as melhores soluções possíveis. Os atletas estiveram sempre de corpo e alma na Seleção.
Não podemos estar perante o risco de os surfistas do CT fazerem um boicote aos Jogos Olímpicos?
Acho que se forem minimamente inteligentes nunca fariam isso. Os atletas é que iriam sair a perder. Os Jogos Olímpicos não vão parar! Há atletas a construírem carreiras com o que tem acontecido no surf olímpico: surfistas que ganharam casas do Governo, outros ganharam patrocínios enormes. Isto não é para os melhores surfistas. É para todos os surfistas do mundo! Todos têm oportunidade.
Para fecharmos, mudando um pouco a temática, como é que vês a escolha de Trestles para palco da prova olímpica?
É claramente a melhor onda ali da região. Tanto é que recebeu durante vários anos a WSL Finals e tivemos lá campeonatos dos antigos QS Prime. A onda é ótima, de qualidade mundial, com direitas e esquerdas. É uma onda de alta performance. Acho que vai proporcionar um espetáculo muito bom.
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